janeiro 24, 2010

O Colecionador de almas


Ele colecionou almas durante toda sua vida, não se importava com as crianças, não se importava com ninguém. Colecionava por prazer, para ver simplesmente o brilho dos olhos extinguir-se e a fome cessar.
Mas um dia, ao invés dele procurar almas, uma alma doce, triste e pequena o procurou.
Faça comigo o que fez com as outras. Eu não quero mais presenciar tudo isso.
Isso não está certo.
Mas sempre matou crianças, sempre.
E como sabes, criança?
Leio jornal.
E como me achou?
Jornal.
E por que queres tu morrer?
Porque a vida já não me tem mais nenhum sentido.
E por acaso a vida tem sentido para alguém?!
            Então, é por isso que matas?
Nesse momento o colecionador olhou fixamente para o canto mais sombrio do beco escuro, com olhar pensativo.
            Não, não é por isso que mato.
            Ora, eu vim lhe procurar... E tu não me queres matar? Por quê?
O colecionador ficou em silêncio.
            Porque nunca fiz isso.
            Matar tornou-se arte? Matas agora só quando queres e quem quer?
Ele se zangou. Uniu as sobrancelhas; olhou-a fixamente.
            Criança, sou sim um assassino. Mas...
A criança o interrompeu.
            Chamam-no não só de assassino, mas também de psicopata. Há diferença?
            É claro que há. Eu vivo por uma causa maior do que a dos assassinos. Eu vivo para ver os pobres e miseráveis meninos terminarem na minha mão. Eu tiro o sofrimento de viver tão somente da pobreza.
            E para onde vão? Deve ser melhor o lugar para onde os manda (a menina olha para o chão neste momento e com uma voz suave, no entanto prossegue agitada). Diga-me, para onde irei?
O colecionador sentou-se no chão imundo coberto por jornais. Olhou para suas mãos.
            Não sei para onde vão. Mas deve ser melhor do que aqui.
            Manda os meninos pobres e miseráveis para um lugar que tu nem sabes onde é?!
            A questão não é essa. A questão é apenas mandá-los, para onde quer que seja.
            Por que não te matas também? Assim saberás como é a morte. Aproveita e me leva junto contigo. Se bem que... Tu nem sabes como é lá.
            És tu muito impertinente. Acha-me sei lá como, vem me ordenando para te matar e agora questiona a mim sobre o que faço, por que faço... E além do mais, pergunta-me para onde vão aquelas crianças que mato. Ora, mate-te tu mesma a ti. Pois que faca nenhuma lhe merece cortar a garganta.
            Grosso! Vim aqui me oferecer... Você não é nenhum psicopata, deve ser mesmo assassino, a não ser que assassino e psicopata sejam sinônimos.
Ele se levantou e disse:
            Por que queres morrer?
A menina encheu os olhos de lágrimas.
            Eu não tenho motivo para continuar aqui. Este é problema. Não tenho nenhum desejo ou ambição. E também... Como poderia ter?!
O colecionador fez uma cara de admirado.
            Como nenhum desejo?
            A princípio pensei apenas que queria não ser tão pobre, ter pais ou algo assim, mas hoje, percebo que não quero nada. Vivia com os desejos de meus amigos. Este não era o meu desejo. Não tenho vontades além das vitais.
            Mas... Você quer morrer, isto é um desejo.
A menina secou as lágrimas e sorriu ironicamente.
            Não creio que seja isso um desejo, mas um caminho para uma vida que não tem escolhas. Eu não sou nada. Sou vazia.
            E por que dizes isso?
            Porque moro nas ruas, muitas vezes não tenho o que comer, não posso estudar, sou uma pobrezinha... É dessa forma que me chamam, no entanto ninguém é capaz de ajudar. Quando eu aprendi a ler em um orfanato... Fugi. Lá eles nos tratam pior do que lixo. Deve ser isso que chamam de margem da sociedade.
O colecionador deu grito e pegou o pescoço da menina, que não se mostrou assustada.
            Como podes dizer isso? Tens tua juventude, há bem mais precioso?
A menina fez que sim com a cabeça. Ele soltou-lhe o pescoço.
            Podias ter continuado, não pude nem sentir como é partir. E se a juventude é tão preciosa por que mata crianças?
És maluca.
A menina riu.
 Engraçado... Dizem pelas ruas que tu és maluco.
            Zombas de mim? Pensei que quisestes morrer!
            Quero! Mas tu pareces-me que não sabes nem para onde manda as crianças.
            Menininha impertinente... E alguém neste mundo sabe para onde vão?
            As pessoas religiosas dizem que viramos anjos.
O colecionador começou a rir sem parar.
            Anjos?
            Sim, anjos. Não achas que é verdade?
            Tu crês nisso?
            Eles dizem; eu sonho, às vezes, sendo anjo. Sonho poder não ter fome, dor, não presenciar a vida sob os olhos de um beco sujo, sobre ruas sujas. Como disse... Não quero ter pais. Já sofri demais em orfanatos. Não quero nada. Talvez, eu pudesse querer ser anjo, assim levaria todas as crianças junto comigo, levaria todas aquelas que têm que viver na pobreza. Achas mesmo que o lugar para onde as manda é melhor do que o lugar onde vivemos?
O colecionador começou a andar de um lado para o outro, sem dar respostas.
 Não sei. Penso apenas que deve ser melhor.
Então quer dizer que as envia por prazer?
Sim. Mas também por pena.
Pena da pobreza?
Sim, é claro. Eu fui um menino de rua assim como você.
Hoje, ao que me parece és um homem de rua, um fugitivo da polícia, considerado o maior psicopata do estado.
O maior do estado?
Sim. Não lês jornais?
Não. Apenas deito-me neles. Não gosto muito de rótulos.
Mas você é considerado o pior dos piores.
Por que não tens medo de mim?
Porque não se teme o que se conhece.
Como poderias me conhecer?
Não lês jornais?
Não!!!
Pois então, eu gosto de ler. Além do mais, quero a morte e não a temo como os outros meninos.
Não teme a morte porque nunca esteve perto dela.
Estou perto de um assassino.
Pensei que tivesse dito que me conhecesse.
            Sim.
            Ora, menina. Talvez, tu saibas mais do que eu que eu não a matarei.
            Como assim não me matarás?
            Eu nunca matei meninas com a sua idade.
            Sabes quantos anos tenho?!
            Não, mas pelos teus peitos que estão começando a nascer é possível presumir.
A menina escondeu os peitos com os braços, com o rosto corado.
            Eu não sou velha.
            Eu sei. És bastante jovem.
            Então por que não me matas?
            Não é assim. Não funciona desta forma.
            Se não me matar o entrego para a polícia.
O colecionador começou a rir.
            Tu não achas que se a polícia quisesse me prender já não o teria feito? Se até uma mocinha achou-me.
            Por que eles não te prenderam?
            Tu achas que as pessoas, não pessoas como tu, mas pessoas que são consideradas pessoas, gente rica gosta de crianças em suas portas pedindo comida? Achas que o prefeito desta cidade gosta de crianças miseráveis enfeitando as ruas?  Achas? Ou melhor, achas que os grandes comerciantes gostam de crianças lhes implorando comida, entrando em seus estabelecimentos?
A menina já estava a chorar. O colecionador parou de falar e sentou-se novamente em seus jornais.
            Estou certa. Não tenho valor, ou melhor, nós, crianças pobres e miseráveis não temos a quem recorrer. Só aos céus.
            Pelo menos crês em céu.
            Tu não crês; nota-se que não crês. Achei que tu sabias o que fazias. Mas percebo que não. Tu deves matar por dinheiro. Deves ser como os outros, tu não deves ser nem o psicopata, deves ser o seu assistente pago por ele.
            Pare! Eu não mato por dinheiro! Mato por...
            Mata por...?
            Por ver o brilho dos olhos se extinguir, a dor cessar, a fome acabar.
            Não adianta. Sempre vai haver crianças que passam fome. Matá-las não fará com que parem de nascer. Vou levar isto.
A menina saiu do beco escuro com uma faca na mão.




14 comentários:

Lídia Borges disse...

É este um espaço muito bem organizado e com um pendor de originalidade bem patente.
Voltarei para poder ler este conto mais atentamente.

Um beijo

Luiza M. Nogueira disse...

Conto de alma. Quanta calma ;).

Beijos

Fabrício Santiago disse...

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Fabrício e cheguei até vc através do blog Seara de Versos. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir meu blog Narroterapia. Eu sei que é ridículo da minha parte te mandar essa propagando control c control v, mas sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas no blog da Lídia Borges, ela inclusive é seguidora do meu blog, claro que ela faz isso mais por gentileza do que pela qualidade do meu texto, mas estou me aprimorando, e com os comentários sinceros posso me nortear melhor. Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs


Narroterapia:

Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.


Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.


Abraços

http://narroterapia.blogspot.com/

Silenciosamente ouvindo... disse...

Um tema que mexe connosco este seu.
As subtilezas da vida nas suas várias vertentes.Saudações/Irene

Nydia Bonetti disse...

Teus textos são de tirar o fôlego. Gostei muito, muito da maneira como abordou este tema tão difícil. Um belo conto. beijo!

Bєzєяяɑ Guimɑŗãeร disse...

Lídia, volte sim.

Muito obrigada pela visita.

Beijos,
Ry.

Bєzєяяɑ Guimɑŗãeร disse...

Muito obrigada pela rima e visita, Luiza.




Beijos,
Ry.

Bєzєяяɑ Guimɑŗãeร disse...

Fabrício, estou seguindo seu blog.


N a r r o t e r a p i a



Beijos,
Ry.

Bєzєяяɑ Guimɑŗãeร disse...

Sutilezas da vida.

E como disse meu colega, Pedro Henrique: ainda bem que vc não matou a garota.
Obrigada pela visita.


Beijos,
Ry.

Bєzєяяɑ Guimɑŗãeร disse...

Muito obrigada, Nydia.


É um prazer tê-la aqui.


Beijos,
Ry.

Fábio disse...

Oi estou passeando pelas paginas aqui e gostaria de aproveitar para convidar conhecer meu trabalho através do blog Ecos em www.ecosdotelecoteco.blogspot.com Grande abraço e sucesso ai para voce.. T +

Silvana Nunes .'. disse...

Bom dia, minha querida.
Eu adoro essas histórias. São muiito interessantes.
FOI DESSE JEITO QQUE EU OUVI DIZER... deseja uma boa semana.
Beijo grande.

Silvana Nunes .'. disse...

Esse texto é belíssimo.
Os questionamentos não podem nunca sumir da nossa mente.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja um bom carnaval.
Beijo grande.
Saudações Florestais !

Luan Yami disse...

De todo os seu trabalhos o colecinador de almas foi o que eu mais gostei.

bjs...